Conheça alguns dos nossos casos emergenciais

Elizabeth é uma viúva de 48 anos, mãe de dois filhos, Jacob (22) e Andre (19). Em novembro de 2016 ela nos solicitou auxílio. Conforme fomos nos inteirando do caso, percebemos que estávamos diante de um dos casos mais graves de violência e racismo que já havíamos atendido. Conheça sua história.

Natural de Ruanda, Elizabeth é uma sobrevivente do genocídio de 1994, onde em apenas cem dias, mais de 800 mil pessoas foram mortas por extremistas étnicos hutus, que vitimaram membros da comunidade minoritária tutsi, assim como seus adversários políticos, independentemente da sua origem étnica.

Durante o genocídio Elizabeth teve sua casa incendiada e muitos de seus familiares brutalmente assassinados, entre eles sua mãe e seus irmãos. Sobreviveu porque não estava em casa naquele dia. Sua história de perseguição, contudo, não começa aí, pois com apenas 5 anos de idade, por ocasião de um golpe de Estado, seu pai, membro do governo, foi assassinado e sua mãe foi presa. Elizabeth foi para a prisão com sua mãe. Liberta após meses de cativeiro, cresceu traumatizada com o que viu e experimentou naquele lugar.

Por ser filha de um casamento interétnico (seu pai era hutu e sua mãe, tutsi), Elizabeth cresceu sofrendo ameaças dos dois grupos rivais. Casou-se com um empresário bem sucedido, com quem teve dois filhos. No nascimento de seu caçula a enfermeira, percebendo sua origem étnica, deixou propositalmente uma tesoura em sua barriga, o que lhe ocasionou uma forte hemorragia, uma nova cirurgia e quase morte. Elizabeth carrega sequelas disso até hoje.

Em 2005 seu marido foi raptado por forças políticas buscando vingança. Nunca mais teve notícias dele, mas é certo que foi assassinado. Todos os seus bens lhe foram tomados (casa, comércio, carros, etc). Pra salvar sua vida, fugiu do país com seus dois filhos pequenos. Conseguiu chegar em Uganda, mas no caminho sofreu inúmeras e diferentes violências. Numa delas foi amarrada a uma árvore e espancada, sendo deixada como morta por 3 dias, até que foi encontrada e salva.

Em Uganda recebeu o status de refugiada, mas mesmo ali as forças da vingança étnica e política tentavam matá-la. Por conta destas ameaças, em 2006 foi enviada a um país da Ásia, sob o cuidado da ACNUR (Agência da ONU para refugiados).

Durante os dez anos que está neste país asiático, Elizabeth tem feito de tudo pra levar uma vida normal, mas infelizmente, em todo o tempo, ela e os filhos têm enfrentado terrível racismo por conta de sua cor de pele e origem africana. Num dos ataques chegaram a lhe atear fogo! Sem falar nas propostas de proteção em troca de sexo e muitas outras inenarráveis violências.

Há alguns dias, durante uma conferência telefônica de duas horas, enquanto nossa equipe de Advocacy lhe orientava pra uma importante entrevista, ela levantou as mangas da blusa e mostrou-nos as marcas de um ataque sofrido naquele mesmo dia! Um grupo lhe havia atacado com um cão. Ao chegar ao hospital a enfermeira caçoou: “Desde quando gente da sua cor sente dor?!!!”.

Enquanto ela narrava estes fatos, lágrimas de profunda dor e indignação lhe corriam pela face. Todos nós que participávamos daquela conversa fomos profundamente impactados por ver ali, na nossa frente, um exemplo tão cruel da violência racista.

Elizabeth solicitou nossa ajuda pra ser reassentada novamente num outro país onde não sofra o preconceito, seja por sua cor ou etnia. O ABUNA sente-se honrado por poder prestar assistência a ela e a seus dois filhos.

Apesar de tão sofrida história, Elizabeth encontra forças em sua fé cristã, herdada de seus pais, para continuar. Sua coragem, tenacidade e resiliência nos tocam profundamente. O ABUNA fará tudo o que estiver ao nosso alcance pra que Elizabeth e seus filhos recebam a resposta que tanto esperam.

Que nosso novo governo seja sensível e autorize-nos a acolhê-los! Que as lágrimas pelo desprezo se transformem em alegria. Que o amanhã lhes traga o sol da justiça. E que nós, juntos, possamos celebrar sua liberdade e lutarmos contra toda forma de violência e racismo.

Você pode apoiar o ABUNA na assistência e socorro desta e de outras famílias através de uma doação. Todo apoio é bem vindo!

Que o Reino do bem venha sobre nós e sobre todos aqueles que clamam por justiça. Um novo amanhã é possível. Vamos construí-lo juntos!

Obs. Foto ilustrativa. Por questões de segurança os nomes foram alterados.