Voltei há pouco. Fui ali… Encontrar meus irmãos do Oriente Médio e Norte da África. Nossos irmãos, devo dizer, pois quando estou entre eles, seja numa refeição, visita ou reunião, numa simples conversa ou quando sou convidado a falar, orar e a compartilhar a Palavra, não sou visto como o “José”, mas como representante da família daqui, o que sempre me deixa constrangido. Não sou digno de tanto… Por outro lado, não vou por vontade própria. Vou em obediência. Uma voz mais forte, inquestionável e inquietadora me constrange. Vou porque recebi uma santa con-vocação.

Nossos encontros são, em grande parte, dedicados a conhecer e ouvir a realidade das famílias, dos ministérios, seus desafios e oportunidades, enfim, uma escuta que tem como propósito ouvir “A VOZ” que fala dentro da voz do outro. Uma pergunta profunda paira no ar e é ansiosamente buscada… “O que o Senhor está fazendo, Pai? Qual o teu plano? Como podemos somar forças ao que o Senhor está fazendo e como podemos nos apoiar mutuamente?” Tempos de oração se seguem, regados de lágrimas e esperança. “O Mestre está entre nós”!

Todos eles são minoria em seus países, sofrem perseguição em vários níveis, desde severas restrições para praticar sua fé a atentados à vida. E se fosse aqui? Pergunto eu. Como agiríamos? Todos, também, sem exceção, são afetados por milhões de refugiados e deslocados internos vivendo às suas portas. “Todos os nossos ministérios se converteram em ministérios aos refugiados. Não há como não ser assim”.

Com o passar dos anos, os conflitos ainda presentes no Iraque, Síria, a escandalosa crise humanitária no Iêmen, a instabilidade no Líbano (pra mencionar somente alguns), e a consequente impossibilidade de voltar para o que um dia foi um lar, mas ao mesmo tempo a impossibilidade de migrar para países livres e estáveis, faz com que novos traumas surjam, entre eles: o número enorme de suicídios entre adolescentes e jovens refugiados, a multiplicação de casos de violência doméstica por homens que carregam traumas e frustrações, os muitos casos de assédio e violência sexual contra meninas em casas compartilhadas por 4 ou 5 famílias, e a prostituição como única alternativa para viúvas que têm que alimentar os filhos. Quanta dor e tristeza… Quantas oportunidades de servir…

Porém, em meio a tudo isso, é notável ver o amor de Cristo fazendo diferença. Perseguidos servindo perseguidos. A igreja é a primeira a sofrer os ataques, e é também a primeira a abrir as portas e o coração para servir os feridos, independentemente da religião. Templos transformados em abrigos. Líderes transformados em servos. Os ministérios, conhecidos pela excelência, organização, qualidade e relevância do serviço que prestam. É notório também a queda dos muros de separação. “Somos um”, afirmam os cristãos evangélicos, protestantes, católicos ou ortodoxos… Nosso vínculo é Cristo!

Dentre tantas histórias de fé, amor, esperança e perseverança, me impactaram muito o testemunho dos cristãos iraquianos, “sobreviventes do ISIS”, refugiados em outros países, mas sem direito à documentação, trabalho e dignidade; e os cristãos palestinos, perseguidos e refugiados em sua própria terra, ignorados pelo mundo e, como negar, pela própria igreja. “A maior parte de vocês nem sabem que existimos!” E é justamente deles, os menores, mais feridos, mais perseguidos, que vêm o exemplo mais constrangedor. Apesar de suas imensas limitações, os dois grupos estão fortemente envolvidos em ministrar aos outros perseguidos e refugiados, levantando ofertas, enviando ajuda material, equipes… Que exemplo!

Daqui a alguns dias sairei em viagem novamente. Desta vez para o sudeste da Ásia. Língua e contexto político diferentes, porém uma mesma realidade: nossos irmãos sendo perseguidos e, mesmo assim, perseverando. Ore para que, além da minha presença e palavras, eu possa levar algo concreto para compartilhar (doações são necessárias) e com isso comunicar uma verdade: “Vocês são amados. Não foram esquecidos e não estão sozinhos. Como podemos lhes servir?”

Temos passado por lutas e provações em diferentes áreas, porém, o que são elas comparadas com as lutas de nossos irmãos? Além disso, o Senhor tem nos sustentado e, na nossa fraqueza, servimos e consolamos com a mesma consolação que recebemos. Obrigado por andar conosco, por orar e investir na vocação que recebemos do Pai. Que a alegria e a benção Dele sejam com você e sua casa!